A Batalha do 2 de Julho


Julho é um mês forte em termo de lutas cívicas. No dia 1º de julho, celebra-se o Canada Day (Fête du Canada). Já o dia 2/jul marca a data da Independência da Bahia. Desde 1962, a Argélia comemora no dia 3/jul o fim de sua guerra de independência. No dia 4, os Estados Unidos festejam a sua. No dia 9, ocorreu a Revolução Constitucionalista de 1932 em São Paulo. E no dia 14/jul deu-se a Queda da Bastilha, na França.

Castro Alves imortalizou a data magna da Bahia no seu poema “Ode ao Dous de Julho“. A primeira estrofre decreveu o clima da luta entre Brasil e Portugal:

“Era no Dous de Julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia…
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
Neste lençol tão largo, tão extenso,
Como um pedaço roto do infinito …
O mundo perguntava erguendo um grito:
Qual dos gigantes morto rolará?! …”

Avançando para o 2 de julho de 2010, podemos responder à pergunta de Castro Alves. Foi o Brasil, gigante “deitado em berço esplêndido”, que rolou morto na África do Sul. No 2 de Julho de 1823 vencemos os portugueses, no Recôncavo, nos campos de Pirajá e nas ruas de Salvador. Em 2010, contra os Países Baixos também vencemos infelizmente perdemos.

O “campo de batalha” era familiar à Holanda. No final do século XIX, colonizadores holandeses e franceses da África do Sul lutaram contra os britânicos na Guerra dos Bôeres. Tudo lá era terra deles. E Port Elizabeth também foi um “território holandês” hoje contra o Brasil. Tomamos uma laranjada no estádio da Baía … Nelson Mandela. O mesmo Mandela que liderou a luta contra o apartheid instituído por descendentes dos … holandeses.

Haveria semelhanças entre as batalhas de 2 de julho de 1823 e 2 de julho de 2010? Em ambas, lutávamos pela pátria: a independência definitiva de Lisboa, no primeiro caso, e a pátria de chuteiras, em busca da sexta Copa do Mundo, no segundo.

Maria Quitéria, heroína da Independência da Bahia e patronesse do Quadro Complementar de Oficiais do Exército

As diferenças. No comando das batalhas de 1822-1823 tivemos o lorde britânico Thomas Cochrane, primeiro almirante da Marinha do Brasil e herói naval da Escócia. Contamos também com o mercenário francês, o general Pierre (Pedro) Labatut. Os dois conduziram as tropas brasileiras com maestria, o que Dunga, que não é exatamente um “lorde”, não conseguiu.

Na batalha do século XIX tivemos vários craques no campo. A sóror Joana Angélica, que deu sua vida para impedir o ingresso da soldadesca portuguesa no Convento da Lapa, foi um dos que fizeram história.

Tínhamos a cadete Maria Quitéria, que se alistou com o nome de “Soldado Medeiros” e tornou-se heroína da pátria, a nossa Joana D’Arc, como integrante do Batalhão dos Periquitos, a seleção canarinho daquela guerra.

Os Encourados de Pedrão, cavaleiros do interior do Estado, também foram escalados contra os lusitanos e fizeram bonito, atacando em bloco o exército adversário.

Tivemos também o corneteiro Luís Lopes, que trocou o toque de “bater em retirada” por “avançar cavalaria e degolar“, assustando os portugueses, o que permitiu que brasileiros (incluindo sertanejos e caboclos) dominassem a capital baiana e sobre ela marchassem triunfantes no 2 de Julho de 1823, data da Libertação Nacional. Por isto, com ou sem vitória no futebol, hoje é feriado na Bahia.

Como se pode ver, o time de 1823 era muito melhor que a equipe de 2010. Talvez tenha faltado a sabedoria marota do corneteiro Lopes ou a bravura de Maria Quitéria. Perdemos esta, mas não importa: nos dois casos lutávamos pelas mesmas cores: o verde e o amarelo. Agora é hora de nos preocupar com a outra seleção. A seleção dos nossos governantes.

Enquanto ninguém olhava, o Supremo Tribunal Federal suspendeu o cartão vermelho de dois políticos. A Copa foi mesmo marcada por muitos erros de arbitragem. Como diria Sílvio Luiz, “confira comigo no replay“. Usando uma brecha legal, os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes afastaram a aplicação da Lei da Ficha Limpa (Lei Complementar 135/2010) para a deputada estadual Isaura Lemos (GO) e o senador Heráclito Fortes (PI).

O grande Sílvio Luiz adverte!

Depois da derrota para a Holanda, Dunga e Felipe Melo também estão com a ficha suja. Será que eles têm chance no STF? Deve haver algum recurso constitucional capaz de limpar a barra deles, sei lá…

Pode ser que sim, mas em matéria de eleição, não importa o que o ábritro decide. Os técnicos somos todos nós.

Quem escala o presidente, os 27 governadores, as centenas de deputados e os 81 senadores é a geral. Há os que jogam pela esquerda, pela direita e pelo centro. As eliminatórias começam no dia 5/jul. A final ocorrerá em 3 de outubro.

Se errarmos nessa escalação, não dá para pôr a culpa no juiz. E é igualzinho à Copa. Para melhorar esta “seleção”, só daqui a quatro anos. Invocando de novo o Sílvio Luiz, olho no lance“!

PS – A FIFA atribuiu a Sneijder o gol de empate holandês. Olha aí! Nem demorou e já deram “um HC” ao Felipe Melo!

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CategoriasCorrupção, Direito Eleitoral, História, Legislação

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3 respostas

  1. AINDA VOU ESTUDAR DIREITO

  2. bom de mais esse texto,parabéns ao escritor•••

  3. Professor, parabéns pela capacidade de aliar o humor com informação, resultando na suavidade que nos transmite os fatos do “mundo jurídico”.

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